Carta - J.F. para M.C.
Autor: João Americano (João Felipe C. S.)
Quando penso nela, vem um rosto.
Meu bem surge primeiro com um sorriso perfeito, olhos castanhos que me desmontam, e logo depois com aquela voz linda, mas que falava com certa raiva para parar com as minhas piadas e, em seguida, ria delas sem perceber que ali mesmo já me perdoava antes de qualquer erro. Ela aparece viva, presente e íntima, como se nunca tivesse ido embora do meu peito.
O que eu sinto falta não é apenas dela, é do amor que existia quando ela estava aqui. Sinto falta de ser amado de um jeito que não sei explicar. De chegar em casa cansado e saber que haveria uma única ligação me esperando, ou uma mensagem curta e direta me chamando para a sua casa, que soava como um “vem descansar em mim e eu vou me descansar em ti”. Sinto falta de ligar no intervalo do almoço só para ouvir suas reclamações, seus assuntos aleatórios e excêntricos, suas pequenas infelicidades diárias, e interromper tudo de repente para dizer “eu te amo, meu bem”, ouvindo depois aquela resposta desajeitada que só ela poderia falar. Sinto falta de beijá-la quando o mundo inteiro não podia ver ou ter, de amar como jamais amei e de me sentir amado como jamais me senti.
O erro que mais dói não foi um fato isolado, foi um conjunto de ausências de minha parte. Não tomei a melhor decisão quando devia ter agido. Fui negligente nos momentos difíceis e cruel quando o certo teria sido pedir ajuda. Fui ignorante quando não fui sincero, e fui sincero quando já não sabia o que queria. Escolhi trabalhar quando deveria vê-la, escolhi dormir quando deveria amá-la. Me arrependo de não tê-la visto todo santo dia, como se o tempo fosse infinito e o amor pudesse esperar o melhor momento para ser vivido. O momento do amor é o agora.
Se ela estivesse sentada na minha frente neste instante, eu não saberia o que dizer. Talvez nem dissesse nada. Eu a amo tanto que, se depois de um simples “oi” ela pedisse para não ouvir mais a minha voz, eu ficaria ali mesmo, parado. Hipnotizado pelo som da sua respiração, pelo desenho do seu rosto, pela evidência silenciosa de que amar alguém, às vezes é aceitar não ser ouvido, mas ter o privilégio de poder ouvir e vê-la por mais um instante.
O que eu sinto hoje não é esperança. É medo. Medo de ela encontrar outro alguém enquanto eu rejeitei tantas pessoas por saber que nenhuma poderia ser como ela é. O que existe em mim agora é amor com saudade. Uma saudade que ama, um amor que teme e um sentimento que não vai mais voltar. Tenho mais medo é de esquecê-la, esquecer seus gostos, seu sorriso, sua bela voz e esquecer seu jeito tão bonito de ser.
Eu te amo, meu bem. Eu te amo...