20 agosto, 2026

Um Peso Finito

Um Peso Finito


Autor: João Americano (João Felipe C. S.)

Tenho pensado em você mais do que gostaria de admitir. Não sei exatamente por que algumas lembranças permanecem enquanto tantas outras desaparecem em minha mente. Às vezes me lembro de coisas que talvez você nem se recorde mais: um jeito de olhar, uma conversa qualquer, alguma noite em que ficamos juntos sem perceber a hora passar e que meu dia ia me estressar longe de você. É curioso pensar que para mim pequenos momentos ainda carregam um peso enorme, enquanto talvez tenham se tornado apenas lembranças distantes para você. Isso me afeta.

Já faz bastante tempo desde que tudo terminou. Quase um ano desde que você me disse que para você havia acabado. Eu ouvi aquilo, e certamente, eu nunca tenha conseguido aceitar completamente. Não aceitei porque existe uma diferença enorme entre compreender alguma coisa e conseguir senti-la como verdade absoluta.

Eu sei que as coisas mudaram, sei que nós mudamos. E sei também que não posso voltar no tempo para corrigir aquilo que fiz ou deixei de fazer. Mesmo assim, às vezes me pego imaginando como teria sido se eu tivesse percebido algumas coisas antes: Se eu tivesse sido mais presente, se eu tivesse cuidado melhor de nós, se tivesse entendido que o amor também se perde quando a gente acredita que ele estará ali amanhã, esperando pela nossa atenção com o mesmo entusiasmo.

Talvez essa seja uma das coisas que mais me incomodam quando penso em você: saber que tivemos algo bonito nas mãos e que, em algum momento, eu não soube segurá-lo e não deixar escapar. Como é dito em BoJack Horseman, "Se tiver a sorte de achar alguém que consiga tolerar um pouquinho, agarra firme e não deixa fugir. Custe o que custar!" cômico pensar nisso... você fazia muito mais do que simplesmente me tolerar.

Ainda consigo me lembrar dos teus olhos, da tua boca, do seu sorriso e lembro perfeitamente das noites em que nos beijávamos como se não houvesse nada além de nós dois no mundo. Naquela época, eu não pensava que um dia sentiria falta dessas coisas, a gente nunca imagina que está vivendo uma lembrança enquanto está dentro dela.

Eu não sei se você pensa em mim. Não sei se alguma dessas lembranças ainda significam alguma coisa para você. Talvez não signifique. Talvez você tenha conseguido colocar tudo isso em algum lugar do passado e seguir em frente. E, se foi assim, eu não tenho o direito de pedir que você volte para um lugar do qual decidiu partir e superou.

Você foi importante. Muito mais do que talvez eu tenha conseguido demonstrar enquanto estávamos juntos. E se existe alguma coisa que eu gostaria que você soubesse, depois de todo esse tempo, é que eu não me lembro de nós apenas com tristeza e melancolia. Existe tristeza, é claro, mas existe saudade e muito amor.

Apesar de tudo, eu tive você e você me teve. Fomos inteiros, um ao outro, um pelo outro.

Tive suas mãos nas minhas, seus olhos diante dos meus, suas palavras ecoando aos meus ouvidos e seus abraços carinhosos nos dias em que eu precisava deles sem nem saber.

Algumas pessoas simplesmente passam pela nossa vida sem deixar nada além de uma lembrança. Você deixou uma parte de mim que ainda estou aprendendo a compreender.

Talvez um dia eu consiga olhar para tudo isso sem sentir vontade de voltar e consiga lembrar de você com a serenidade em saber que algumas histórias não foram feitas para durar uma eternidade, mas mesmo com toda a sua finitude foram importantes por terem simplesmente existido.

Por enquanto, ainda estou aprendendo. E talvez esta carta seja apenas isso: uma mera tentativa de colocar em palavras aquilo que nunca consegui dizer enquanto ainda havia tempo de viver.

Eu ainda sinto sua falta. Não sei até quando. Mas hoje, pelo menos, senti.

06 agosto, 2026

Não Sinta Ódio

Não Sinta Ódio


Autor: João Americano (João Felipe C. S.)


O ódio é uma imagem inteiramente subjetiva criada em nossas cabeças sobre determinada pessoa ou acontecimento. Sentir ódio não nos leva a lugar algum. Não há nada que possa ser feito quando se tem ódio; ao contrário, não sentir ódio é a maior demonstração de potência do ser humano. Isso significa que temos total controle sobre algo incontrolável.

Pensando em São Tomás de Aquino, o ódio não possui uma existência própria ou uma substância real; ele é compreendido como uma privação do bem. Na Suma Teológica, Tomás de Aquino explica que as paixões da alma devem ser regidas pela razão. Quando o indivíduo se deixa dominar pelo ódio, ele não está exercendo o poder ou a força, mas caindo na passividade de tornar-se escravo de uma imagem irreal e de uma dor provocada por ele mesmo. O ódio, portanto, é uma ilusão da inteligência que toma o mal por um objeto de fixação, paralisando a capacidade humana de agir com sabedoria.

Se você for lá e acabar com a pessoa que odeia, o teu ódio não vai sumir; e se ficar remoendo o ódio em casa, também não vai adiantar de nada. É a mais pura demonstração de impotência do homem, sentir ódio e viver com ódio.


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