11/08/2026
11 agosto, 2026
06 agosto, 2026
Não Sinta Ódio
Não Sinta Ódio
Autor: João Americano (João Felipe C. S.)
O ódio é uma imagem inteiramente subjetiva criada em nossas cabeças sobre determinada pessoa ou acontecimento. Sentir ódio não nos leva a lugar algum. Não há nada que possa ser feito quando se tem ódio; ao contrário, não sentir ódio é a maior demonstração de potência do ser humano. Isso significa que temos total controle sobre algo incontrolável.
Pensando em São Tomás de Aquino, o ódio não possui uma existência própria ou uma substância real; ele é compreendido como uma privação do bem. Na Suma Teológica, Tomás de Aquino explica que as paixões da alma devem ser regidas pela razão. Quando o indivíduo se deixa dominar pelo ódio, ele não está exercendo o poder ou a força, mas caindo na passividade de tornar-se escravo de uma imagem irreal e de uma dor provocada por ele mesmo. O ódio, portanto, é uma ilusão da inteligência que toma o mal por um objeto de fixação, paralisando a capacidade humana de agir com sabedoria.
Se você for lá e acabar com a pessoa que odeia, o teu ódio não vai sumir; e se ficar remoendo o ódio em casa, também não vai adiantar de nada. É a mais pura demonstração de impotência do homem, sentir ódio e viver com ódio.
28 maio, 2026
DEMOCRACIA ORGÂNICA - Ensaio
A sociedade é entendida como um organismo vivo, formado por partes diferentes que dependem umas das outras para funcionar bem. Segundo Herbert Spencer, em sua teoria do organismo social, a sociedade evolui de maneira semelhante a um corpo vivo, no qual cada instituição exerce uma função necessária para a manutenção do todo (SPENCER, 1876). Existe uma base ligada ao trabalho e à produção, uma dimensão cultural que forma e caracteriza valores e comportamentos, uma esfera de liderança e organização, que orienta as decisões e um núcleo de sentido que dá direção e unidade ao conjunto. Exatamente como no corpo humano, nenhuma dessas partes pode viver isoladamente.
Partindo dessa visão, surge um problema no modelo de democracia moderna: a sociedade é reduzida a números, onde todos possuem o mesmo peso de voto, como se todas as diferenças concretas pudessem ser ignoradas. O resultado é um sistema que parece justo em termos teóricos, mas que se mostra limitado na capacidade de representar a complexidade real da sociedade.
A democracia moderna carrega uma fragilidade histórica que costuma ser negligenciada. Em regimes que se tornaram autoritários nasceram, parcialmente, de processos de legitimação popular, votos e eleições. Na Alemanha, o regime nazista chegou ao poder por meios legais e com apoio popular significativo. Na Itália, o fascismo também se consolidou com base em mobilização social e aceitação ampla. Esses exemplos não significam que a democracia, por si só, produz ditaduras, mas mostram que, quando reduzida a um mecanismo puramente numérico e sujeita à manipulação, ela pode se tornar um caminho para a concentração de poder total e autoritário.
No Brasil, é necessário aprofundar o debate sobre os limites da democracia representativa, especialmente quando se observa a distância recorrente entre promessas eleitorais e a prática política. O problema não está apenas em um grupo específico, mas em um modelo que permite a formação de estruturas de poder pouco conectadas com a realidade concreta da sociedade.
Diante disso, surge a necessidade de repensar a organização política. Em vez de uma representação baseada apenas em indivíduos isolados ou em disputas partidárias, é possível imaginar uma estrutura que leve em conta os vínculos reais que formam a sociedade, como o trabalho, a comunidade e as responsabilidades concretas. A política deixaria de ser apenas uma disputa por poder e passaria a organizar funções e relações já existentes na vida social.
Na prática, isso significaria, por exemplo, que setores produtivos, como trabalhadores da indústria, profissionais da saúde, educadores e empreendedores, teriam representação direta baseada em suas funções reais, e não apenas por meio de partidos ou exclusivamente pelo voto individual da população. Um conselho formado por representantes da educação poderia deliberar sobre políticas educacionais com base na experiência concreta que possuem da área, enquanto estruturas semelhantes existiriam para saúde, segurança e economia.
Para evitar a concentração de poder dentro desses próprios grupos, seria necessário estabelecer critérios claros de representatividade, como tempo de atuação na área, reconhecimento profissional e validação por pares. Dessa forma, a legitimidade não viria de uma definição arbitrária de quem é “verdadeiro”, mas de parâmetros objetivos ligados à prática e à responsabilidade.
Esse modelo tende a reduzir decisões desconectadas da realidade e políticas orientadas exclusivamente por ganhos eleitorais de curto prazo. Ao mesmo tempo, ele mitigaria problemas como populismo e a manipulação de massas eleitorais. Atualmente, campanhas políticas muitas vezes se baseiam em promessas amplas, carregadas de emoções e pouco objetivas, voltadas mais à conquista de votos do que à resolução de problemas estruturais. Em uma organização mais funcional, o espaço para soluções concretas tende a aumentar, pois a legitimidade estaria vinculada à atuação real, e não à popularidade momentânea de um ou outro político com boa comunicação.
Quem mais se beneficia do modelo atual são elites políticas, estruturas partidárias e grupos com alta capacidade de influência econômica e midiática. Esses agentes operam de maneira insidiosa dentro de um sistema baseado em imagem, narrativa e mobilização de massa. Nesse cenário, o cidadão comum participa majoritariamente como eleitor, com pouca ou nenhuma influência sobre as decisões políticas que o afetam.
Em um modelo mais estruturado, esses grupos perderiam parte desse controle. A influência deixaria de se concentrar em campanhas e partidos e passaria a ser distribuída entre estruturas sociais reais. Isso não implica eliminar elites políticas, mas submetê-las a limites claros, vinculados à função e à responsabilidade. A relevância de um líder deixaria de depender apenas de sua capacidade de mobilizar votos e passaria a ser medida por sua atuação concreta dentro de um setor específico.
Essa mudança também criaria um novo padrão de responsabilização. Hoje, é possível que um agente político construa sua relevância com base em discurso, mesmo apresentando resultados limitados na prática. Em uma estrutura funcional, a cobrança tende a ser mais direta, pois parte de grupos que vivenciam diariamente os efeitos das decisões tomadas.
Uma sociedade não se sustenta apenas por números. Ela precisa de ordem, função e unidade ativa. Quando esses elementos são ignorados, o sistema político tende a oscilar entre a desorganização e a concentração de poder. Nesse cenário, a democracia pode deixar de ser um instrumento de equilíbrio e passar a ser apenas o ponto de partida para problemas mais profundos.
Referências
- SPENCER, Herbert. The Principles of Sociology. London: Williams and Norgate, 1876. v. 1.
22 abril, 2026
Buda seria o caminho para o Anticristo
Buda seria o caminho para o Anticristo
Autor: João Americano (João Felipe C. S.)
Quando eu penso no Buda, vem uma imagem que me incomoda, não me vem a imagem do homem sereno que está sentado debaixo da árvore da iluminação. É algo mais sutil e malicioso. O Cristo veio para dar vida, e vida em abundância. Veio para que o homem sentisse, amasse, errasse, chorasse e fosse encontrado no meio da sua fraqueza. Ele não nos prometeu o fim do desejo e prazer, mas a transformação Dele no amor que se entrega até o último suspiro na cruz. Já Buda ensina outra coisa, dizendo que o sofrimento nasce do desejo, que o apego é a raiz de toda dor, e que o caminho é dissolver esse desejo até que reste apenas o vazio sereno. Até que o eu desapareça. Até que não haja mais ninguém para sofrer, para amar ou para ser salvo (“Da sede nasce a dor, da sede nasce o medo; aquele que se libertou da sede não tem dor nem medo", Dhammapada, v. 216).
E eu me pergunto se não é isso que o Anticristo faria: oferecer uma paz que parece mais profunda que a cruz, mas que na verdade nos afasta dela (“E engana os que habitam na terra por causa dos sinais que lhe foi permitido realizar” Apocalipse 13:14; “E não é de admirar, porque o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz” 2 Coríntios 11:14).
Quem nunca quis, em momentos de grandes dores, simplesmente não sentir mais nada... Não desejar mais ninguém, não carregar mais o peso de ser quem é, com todos os erros, ausências e arrependimentos? O budismo chega com uma compaixão linda, maternal, e diz: “Você não precisa de um salvador fora de você. Basta observar o desejo passar, basta treinar a mente, basta se tornar nada e abraçar o mundo.” E o homem moderno, cheio de culpa, exausto da cruz cristã que exige entrega total, aceita esse alívio como se fosse uma salvação.
Mas eu sinto que há algo de errado. Porque o Deus que eu conheço não quer me dissolver a nada. Ele não quer que eu me torne ar ou luz ou vazio. Ele quer que eu seja inteiro, mesmo estando ferido. Ele quer que eu continue desejando, continue amando e continue sentindo a falta Dele quando me afasto. O Buda oferece o fim do sofrimento sem precisar de sangue, sem precisar de confissão, sem precisar de um amor que se entrega até doer verdadeiramente, ele oferece iluminação sem humilhação, redenção sem um Redentor. E Jesus, ao contrário, estende as mãos perfuradas e diz que é na minha fraqueza que a Sua força se aperfeiçoa. Ele não me convida a desaparecer, mas a morrer para mim mesmo para, enfim, viver de verdade Nele.
E é por isso que eu vejo no Buda um homem histórico com o espírito que se opõe a Cristo. Onde Jesus diz “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, Buda diz que não há caminho conhecido, que a verdade pode ser pura ilusão e que a vida é algo a ser superado. Onde o Evangelho promete que o corpo será ressuscitado e o eu será restaurado em glória, o nirvana de Buda promete que o eu simplesmente deixará de existir.
Na visão islâmica, esse engano ganha o nome de Dajjal, o Falso Messias ou Messias impostor, que virá nos últimos dias apresentando-se como salvador, mas trará grandes atitudes cheias de mentiras. O Islã ensina que não há salvação sem submissão ao Único Deus, sem o Tawhid que reconhece Allah (Deus) como Criador Único e sustentador de todas as coisas do mundo. O budismo, ao negar um Deus pessoal e ao colocar a iluminação nas mãos do próprio homem, toca nesse mesmo espírito de independência que o Dajjal representaria nos dias finais. Jesus, que o Islã também reverencia como um profeta que operou milagres, voltará um dia para derrotar o Dajjal.
Há sutil beleza no que Buda falou, uma beleza que acaba por tocar a nossa alma. Mas a escolha mais correta deve ser ficar com a ferida em estado de cuidado e não ignorá-la. Ficar com o Deus que preferiu sangrar a se sentar debaixo de uma árvore para nunca mais sentir nada, igual o Sidarta Gautama fez. E se um dia o Anticristo, o Dajjal, vier, talvez ele não venha com fúria, mas com o rosto sereno e ensinando a não sofrer mais, multiplicando a palavra semelhante de Buda e espalhando o sinal de Paz e Amor.
Referências
ALCORÃO. Português. Alcorão Sagrado. Tradução de Samir El Hayek. São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, 2001.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
BUDA. Dhammapada. Tradução de Carlos Alberto da Fonseca. São Paulo: Pensamento, 2000.
02 fevereiro, 2026
Das Cartas Não Escritas - Ensaio
Das Cartas Não Escritas - Ensaio
Autor: João Americano (João Felipe C. S.)
Quando penso nela, vem um rosto.
Meu bem surge primeiro com um sorriso perfeito, olhos castanhos que me desmontam, e logo depois com aquela voz linda, mas que falava com certa raiva para parar com as minhas piadas e, em seguida, ria delas sem perceber que ali mesmo já me perdoava antes de qualquer erro. Ela aparece viva, presente e íntima, como se nunca tivesse ido embora do meu peito.
O que eu sinto falta não é apenas dela, é do amor que existia quando ela estava aqui. Sinto falta de ser amado de um jeito que não sei explicar. De chegar em casa cansado e saber que haveria uma única ligação me esperando, ou uma mensagem curta e direta me chamando para a sua casa, que soava como um “vem descansar em mim e eu vou me descansar em ti”. Sinto falta de ligar no intervalo do almoço só para ouvir suas reclamações, seus assuntos aleatórios e excêntricos, suas pequenas infelicidades diárias, e interromper tudo de repente para dizer “eu te amo, meu bem”, ouvindo depois aquela resposta desajeitada que só ela poderia falar. Sinto falta de beijá-la quando o mundo inteiro não podia ver ou ter, de amar como jamais amei e de me sentir amado como jamais me senti.
O erro que mais dói não foi um fato isolado, foi um conjunto de ausências de minha parte. Não tomei a melhor decisão quando devia ter agido. Fui negligente nos momentos difíceis e cruel quando o certo teria sido pedir ajuda. Fui ignorante quando não fui sincero, e fui sincero quando já não sabia o que queria. Escolhi trabalhar quando deveria vê-la, escolhi dormir quando deveria amá-la. Me arrependo de não tê-la visto todo santo dia, como se o tempo fosse infinito e o amor pudesse esperar o melhor momento para ser vivido. O momento do amor é o agora.
Se ela estivesse sentada na minha frente neste instante, eu não saberia o que dizer. Talvez nem dissesse nada. Eu a amo tanto que, se depois de um simples “oi” ela pedisse para não ouvir mais a minha voz, eu ficaria ali mesmo, parado. Hipnotizado pelo som da sua respiração, pelo desenho do seu rosto, pela evidência silenciosa de que amar alguém, às vezes é aceitar não ser ouvido, mas ter o privilégio de poder ouvir e vê-la por mais um instante.
O que eu sinto hoje não é esperança. É medo. Medo de ela encontrar outro alguém enquanto eu rejeitei tantas pessoas por saber que nenhuma poderia ser como ela é. O que existe em mim agora é amor com saudade. Uma saudade que ama, um amor que teme e um sentimento que não vai mais voltar. Tenho mais medo é de esquecê-la, esquecer seus gostos, seu sorriso, sua bela voz e esquecer seu jeito tão bonito de ser.
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11/08/2026
11/08/2026
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